Boas práticas na assistência ao parto
Dos partos realizados em sua maioria por parteiras no início do século XX aos extremamente hospitalares na segunda metade desse mesmo século. Fugindo desses dois extremos o que se prega hoje são as boas práticas na assistência ao parto, ou seja, condutas cientificamente estudadas e hoje incluídas na chamada “medicina baseada em evidências”. Assim, algumas rotinas, como jejum, raspagem de pelos, episiotomia, entre outras, começaram a ser questionadas e estudadas, o que tem resultado em procedimentos mais naturais e humanizados. A seguir, o ginecologista e obstetra Dr. Júlio Pôrto explica o conceito. Confira:

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Como o senhor avalia a medida do governo federal que, com partogramas, busca estimular o parto normal e reduzir as cesarianas?

Essa medida adotada pelo governo não ajudou em nada a baixar os índices de cesariana no Brasil! O partograma já é uma boa prática de assistência ao parto há séculos. O que o governo quis fazer foi tentar reduzir os índices de cesárea de uma maneira arbitrária, unilateral, sem discutir com os médicos e com a sociedade. E o resultado foi que não houve absolutamente nenhuma mudança nos índices. Nossa sociedade é cesareanista. Precisamos mudar a mentalidade sobre como nascer na educação de nossos filhos, para que eles cresçam com a cultura do parto normal. Os países de primeiro mundo mantêm altos índices de parto normal porque é cultural, porque as pessoas acreditam que o parto normal seja a melhor forma de nascer, e não porque o governo quer.

Ficar em jejum e raspar pelos eram práticas comuns quando os partos saíram das mãos das parteiras e passaram a ser realizados em centros cirúrgicos. São práticas que continuam em voga atualmente?

Isso já não faz mais parte da boa prática obstétrica há muitos anos. A medicina baseada em evidências científicas nos mostrou que essas atitudes não diminuem infecção, como originalmente se pensava. Muito pelo contrário, atrapalham em muito o foco do parto normal.

O parto precisa ser realizado sempre em centro cirúrgico?

O parto não precisa ser realizado necessariamente dentro do centro cirúrgico, mas é recomendado que seja realizado em uma unidade hospitalar.

É necessário realizar toques vaginais durante o trabalho de parto? Por quê?

É muito importante realizar toques vaginais durante o trabalho de parto para avaliar se o processo está evoluindo bem. Esses toques devem ser realizados a cada uma hora, conforme determina o partograma. Existe uma máxima em obstetrícia que diz que “os olhos do obstetra estão na ponta de seus dedos”.

Quando a episiotomia é necessária?

A episiotomia é um corte efetuado na região do períneo (área muscular entre a vagina e o ânus), por meio de uma tesoura ou bisturi, com o intuito de ampliar o canal de parto e prevenir danos à musculatura pélvica da mulher. Nos últimos anos, vários trabalhos científicos publicados mundo afora provaram não ser um procedimento necessário na maioria dos partos. Hoje, é consenso no mundo inteiro que a episiotomia deve ser feita obrigatoriamente em um pequeno grupo de mulheres.

Qual a melhor posição para o parto normal?

O parto normal se dá com mais facilidade e rapidez quando a grávida está na posição vertical, seja sentada em uma banqueta de parto ou de cócoras. É uma posição boa para o bebê e para a mãe. A posição deitada traz mais dor lombar para a grávida, limita a realização da força involuntária, realizada pela grávida para ajudar a força da contração, atrapalha a mobilidade da gestante, além de ser uma posição que não conta com o auxílio da força da gravidade.

Quais recursos podem ser usados para aliviar a dor do parto normal?

Os métodos não farmacológicos incluem controle de respiração, exercícios físicos, banhos de água quente, massagens e outros mais. Já os farmacológicos incluem medicações analgésicas, que podem ser administradas na veia da grávida, no músculo ou no liquor (líquido que banha a medula espinhal), podendo ser utilizadas a analgesia peridural ou a raquianestesia.

O que é o fórcipe? Ele ainda é utilizado?

O fórcipe, ou fórceps, é um instrumento utilizado para puxar o bebê na fase final do trabalho de parto. É um instrumento semelhante à duas colheres que são inseridas no canal vaginal para retirar o bebê quando ele inicia um processo de sofrimento e precisa nascer logo para não ter sequelas. É utilizado em partos complicados e que, quando corretamente usado, salva vidas. Existe um preconceito grande com este instrumento, proveniente de lesões causadas pelo mau uso. Na mão de parteiro experiente, é inofensivo. Hoje temos um instrumento menos estigmatizante, chamado vácuo-extrator, feito de silicone, que estabelece uma tração mais suave na cabeça do bebê.

O cordão umbilical deve ser cortado imediatamente após o nascimento ou o bebê deve ter um primeiro contato com a mãe antes?

A recomendação da comunidade médica científica é que o cordão seja cortado após parar de pulsar, para que o bebê receba mais sangue proveniente da placenta, prevenindo a anemia e a icterícia no bebê após o parto. Independentemente de o cordão ser cortado antes de parar de pulsar ou após, o bebê deve ser levado para contato direto com a mãe logo após o nascimento.

A mãe pode ter acompanhante durante o parto?

A parturiente pode e deve ter um acompanhante durante o trabalho de parto e o parto propriamente dito! Ele traz tranquilidade para a grávida, auxiliando-a e a apoiando-a em um momento tão importante quanto o processo de maternidade! Hoje é lei no Brasil: toda grávida tem direito a um acompanhante de sua escolha durante o parto.