Separação: e os filhos?
A separação é sempre um assunto muito doloroso e delicado para toda a família. Afinal, ninguém casa-se para separar-se depois. Mas se isso acontecer, como o assunto deve ser tratada? Nesta entrevista, a Dra. Suely Faria, psicóloga com formação em psicanálise, orienta os pais no sentido de evitar traumas para as crianças, oferecendo tranquilidade e respeitando o direito dos filhos de saberem o que está acontecendo com o casal.

Publicidade

 

Como contar aos filhos sobre a separação?

É importante lembrar que os atritos, ou mesmo, a fala de diálogo entres os pais, não são consequência do nascimento dos filhos. O casal deve considerar que sua (des)união não pode comprometer a relação afetiva com os mesmos. Comunicar que estão se separando, com sinceridade, respeitando os sentimentos das crianças, mostra a atitude amadurecida de quem tem clareza que deseja realmente a separação. Neste sentido, optar pela guarda compartilhada é melhor saída para todos.

 

A partir de que idade uma criança entende o processo de separação dos pais?

Em qualquer idade a separação é traumática. Por mais que a criança esteja desenvolvida (com mais compreensão da linguagem) ainda assim se ressentirá disso. Mas as crianças menores apresentam mais claramente os sinais deste desconforto emocional diante do problema.

 

Quais seriam esses sinais?

As crianças expressam seu desconforto com muito simplicidade. Algumas apresentam problemas pra dormir, outras pra se alimentar e,  até mesmo, sentem dificuldades de interação com outras pessoas. Elas podem ficar tristes ou irritadiças. Isso acontece principalmente por causa da mudança da rotina. Portanto, é recomendável preservar o ambiente da criança em detalhes que são importantes para ela. Isso permite da a ela uma continuidade ao seu cotidiano. Jamais altere abruptamente o ambiente da criança.

 

Mas no caso dos bebês, como comunicar o fato para eles?

Do mesmo modo que se diz para o bebê que ela vai a creche, que ficará com a babá ou a vovó. O bebê não nos responde em nossa linguagem, mas suas expressões e reações nos falam se há uma interação conosco. Quando nos comunicamos com criança, devemos nos colocar no lugar dela, do tamanho dela, tendo como referência nossa própria infância.

 

O que fazer quando um dos pais se torna pouco presente?

Podemos falar em dois modos de se fazer presente: a física, que é incontestável, e a afetiva. A presença afetiva vai além de acompanhar ao shopping ou ao parque. Trata-se do contrato afetivo e, emocional, que proporciona prazer mútuo. A Presença afetiva enriquece o encontro, tornando satisfatório tanto para o adulto quanto para a criança.

 

Como compensar, então, a dor que a separação causa nos filhos?

Não é possível compensar a dor. Ela pode ser  aliviada. A dor existe para todos nós, cedo ou tarde entraremos em contato com ela. Com a dor aprendemos a renunciar e a dizer não. A dor implica a vivenciar momentos de frustração. Não é possível compensar a dor do outro, mas posso me solidarizar com ele e tentar auxilia-lo. É o que os pais podem fazer por seus filhos. Lembre-se que os pais não precisam seu super-heróis. Quando fazem isso transmitem para as crianças um ilusão de que serão poupadas da dor, o que não é verdade.

 

 Como deve ser o tratamento nestes casos de separação?

O acompanhamento psicoterapêutico se faz extremamente importante não só pra as crianças como também para os pais. Nele, é criado um espaço de diálogo com o mundo familiar, de forma que os pais possam se comunicar com os filhos. Deste modo, é possível esclarecer equívocos muito comuns nestes casos, tais como, a criança que se sente culpada pela separação, o sentimento de insegurança em relação ao futuro. Para os pais, o acompanhamento psicoterapêutico pode significar uma preparação para o recomeço.