Desenvolvimento infantil
Como estão os esforços dedicados ao lazer e às trocas afetivas com as crianças? Tão importante quanto manter as visitas regulares ao pediatra é cuidar de promover com frequência os estímulos necessários a um bom desenvolvimento, que envolva também os aspectos físicos, cognitivos, emocionais e sociais. Entenda qual a sua responsabilidade e como contribuir para a formação comportamental saudável do seu filho em entrevista completa com a psicóloga, especialista em neuropsicologia, Dra. Adriane Cruvinel:

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Quais os estímulos relevantes para um crescimento saudável no quesito comportamental?

O afeto é a base, e a família tem um papel extremamente importante na formação do indivíduo, que pode ser positivo ou negativo, dependerá do vínculo afetivo estabelecido. Outro estímulo imprescindível para o crescimento saudável é o reconhecimento que os pais expressam ao filho pelos seus comportamentos, atitude necessária em todas as fases do desenvolvimento humano. Durante a infância, eles devem compreender a criança em seu esforço pela conquista da própria autonomia. Nesse sentido, além de dar carinho, precisam estimular os filhos com atividades comunicativas, propondo-lhes brinquedos e materiais que permitam desenvolver habilidades e destrezas. Eles respondem com curiosidade e criatividade.

Qual a importância desses estímulos para a formação da identidade da criança e no que ela vai se tornar quando adulta?

Como os valores que aprendemos na infância são os que carregamos pela vida afora, é importante que os pais ou os responsáveis pela criança sejam influências positivas em seu cotidiano, e que consigam estabelecer um vínculo afetivo que favoreça a transmissão de valores, principalmente, dando o exemplo por meio de suas atitudes desde o nascimento das crianças.

Como as crianças absorvem e aprendem conceitos e valores?

O aprendizado de conceitos e valores se dá por meio do que é observado, absorvido e vivenciado. Até 2 anos de idade a criança constrói e elabora conhecimentos sobre a realidade. A partir dos 4 anos, ela sai do simbólico e vai para o intuitivo. Dos 2 aos 5 anos é a fase de afirmação do “eu”. Nesse período já troca experiências com outras pessoas. Após os 7 anos, a criança é capaz de estabelecer compromissos, compreende as regras e consegue ser fiel a elas, usando linguagem e estratégias sofisticadas.

Qual a responsabilidade dos pais na formação da imagem que a criança e o adolescente têm de si mesmos? 

Autoconceito é um sentimento que surge das contingências de reforçamento, é adquirido na relação com o outro. É na interação com o ambiente externo que a criança aprende a discriminar estímulos internos, ou seja, construídos nas experiências mediadas pelos pais. A percepção formada nesta experiência se refletirá no desenvolvimento cognitivo da criança, de acordo com a idade. A participação de ambos os pais deve ser de valorizarem as percepções de seus filhos, colaborando na formação de um autoconceito melhor de si mesmos.

E qual a contribuição de um ambiente familiar bem-estruturado?

A criança que encontra um suporte parental positivo irá estabelecer sua autonomia gradativamente. Práticas positivas reforçadoras, como incentivo, instrução direta e clara, refletirão em maiores resultados. Pais reforçam esses comportamentos de autoconceito quando escutam a criança, dão sequência com alguma forma de atenção, carinho, afago físico, sorriso, elogio, e assim fortalecem os comportamentos adequados do filho, produzindo sentimentos de satisfação, bem-estar e autoestima. Sempre oriento os pais a elogiarem a criança e não o seu comportamento.Por exemplo: “Você me deixou feliz com seu boletim” é muito melhor que “As notas do seu boletim me deixaram feliz”. Isso fará toda a diferença na ideia que a criança tem dela mesma, já que as escolhas de amigos, da profissão, de parceiros para se casar, dentre outras, são baseadas neste autoconceito.

Como agir de forma saudável para evitar impor um tipo de comportamento que possa prejudicar o desenvolvimento natural da criança, como, por exemplo, a escolha da profissão a seguir?

Sem arriscar a autonomia do filho, é possível ajudá-lo a encontrar o caminho, basta usar a sensibilidade e o bom senso. O padrão de relacionamento que a criança estabelece com os pais afeta o modo como ela irá encarar as relações de trabalho no futuro. Por isso, é fundamental que eles não sejam expostos a uma educação extremamente autoritária. Os pais devem opinar com cuidado, mas é fundamental que os adolescentes coloquem seu ponto vista e projetem suas expectativas para o futuro. O adolescente com bom autoconceito discrimina que é capaz de emitir comportamentos e de produzir consequências reforçadoras para ele, é livre do outro para produzir o que é bom para si mesmo, porque se ama. Os pais devem evitar focar as discussões no aspecto financeiro da profissão. Por mais que se preocupem com o futuro dos filhos, seguir uma carreira somente pelos ganhos que ela poderá gerar não é uma boa opção. Mais cedo ou mais tarde eles poderão se arrepender. Os pais podem facilitar o processo de escolha dando a oportunidade aos filhos de conhecerem a realidade da profissão, e, como falei, sendo facilitadores para que exerçam sua autonomia.

"Além de dar carinho, os pais precisam estimular os filhos com atividades comunicativas, propondo-lhes brinquedos e materiais que permitam desenvolver habilidades e destrezas."