Déficit de atenção e hiperatividade: sintomas e tratamento
O transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um problema de saúde mental com causas genéticas que tem três características básicas: a desatenção, a agitação (hiperatividade) e a impulsividade. O Manual da Mamãe convidou para um bate-papo os doutores Fábio Borges e Lívio Francisco S. Chaves, pediatras que atuam na área de neuropsiquiatria da infância e da adolescência para falarem sobre o assunto.

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Como uma mãe pode saber se seu filho possui o transtorno?

Dr. Lívio: Observando os sintomas que a deixam preocupada como, por exemplo, quando a criança possui dificuldades para concentrar em tarefas diárias, que não volta a atenção para os detalhes,  que não consegue seguir regras ou que não termina o que começa. Essa criança geralmente é desorganizada com as atividades e materiais escolares, evita exercícios que exigem esforço mental contínuo, perde coisas importante e se distrai com facilidade.

Para ter a TDAH é preciso apresentar todos esses sintomas?

Dr. Lívio. Não. Na maioria das vezes, observamos vários sintomas, mas não é todos. Os pais devem pedir a ajuda de um médico especializado em saúde mental infantil quando a criança apresentar sintomas de desatenção e/ou hiperatividade/impulsividade.

Dr. Fábio. Mas é importante  que eles aconteçam  com frequência e não de vez em quando. Além disso, devem se manifestar em pelo menos dois ambientes diferentes, em casa e na escola, por exemplo.

 

Em que idade pode ser feito o diagnóstico?

Dr. Lívio: É que, antes disso, aos quatro ou cinco anos de idade, ela passa por um processo que nós chamamos de "poda neural". O próprio  organismo se encarrega de selecionar células "boas" e descartar as "ruins". O problema ocorre quando essa "limpeza" não é feita de forma adequada por razões de natureza ambiental, hereditária ou por condições ocorridas lá no período gestacional.

 

O TDAH pode ocorrer juntamente com outro problema de saúde mental?

Dr. Fábio: Sim. Nós chamamos este fenômeno de dois ou mais problemas de saúde. Cerca de 50% das crianças e adolescentes com TDAH também apresentam problemas de comportamento, como agressividade, mentiras, roubo, comportamento de oposição ou de desafio às regras e aos pedidos dos adultos. Como consequência, eles podem ter baixa-estima, serem mais ansiosos e depressivos.

 

Existem distúrbios que podem ser confundidos com o TDAH?

Dr. Fábio: Há também manifestações com tiques, transtorno obsessivo/compulsivo, transtorno de humor, transtorno de conduta, distúrbio bipolar. Eles inicialmente podem ser muito semelhantes ao TDAH. Por isso, antes de tachar qualquer criança com hiperativa, deixe o profissional da área de saúde mental infantil fazer uma análise criteriosa. Diagnóstico e tratamento equivocados podem desencadear transtornos que não existiam.

 

A manifestação é diferenciada de acordo com o sexo?

 

Dr. Fábio: Desde a década de 80, pesquisadores chamam a atenção para as diferenças entre homens e mulheres quanto à expressão do transtorno. Hoje, mais mulheres são diagnosticadas com tipo predominantemente desatento (sem hiperatividade).

 

Como fica a inteligência dessas crianças e adolescentes?

Dr. Lívio: Apesar  das dificuldades de aprendizado e comportamento, eles têm inteligência na faixa normal para sua idade. Alguns podem apresentar QI superior. Mas, no seu meio social, são erradamente vistos como menos inteligentes. Isso abre espaços para frustrações de todas as ordens, desânimos e vergonha de possuir boas condições de raciocínio, sem utilizar o potencial mental necessário para concluir satisfatoriamente suas tarefas.

 

Esse quadro pode permanecer na vida adulta?

Dr. Fábio: Sim. Quando o problema ultrapassa a juventude e se instala na fase adulta, a pessoa vive os prejuízos da desatenção no cotidiano doméstico e do trabalho. Elas são muito esquecidas, inquietas e só parecem relaxar dormindo. Sem contar as demonstrações de impulsividade. E, quando isso atinge o coletivo à sua volta, elas são tachadas de "egoístas". Tanta pressão psicológica pode levar ao uso de drogas e álcool, à ansiedade e à depressão.

 

Quais as formas atuais de tratamento?

Dr. Lívio: Não é pura e simplesmente medicamentosa. Existem medicamentos específicos que agem nos sistemas do TDAH. Mas, aliado a essa providência, há o acompanhamento multiprofissional, que vai ordenar a parte cognitiva e comportamento da criança, para trabalhar e resgatar "as perdas" ocorridas em casa e na escola.

 

A família deve participar desse processo?

Dr. Fábio: Muito! Sabemos que não é fácil ter paciência e vigor para apoiar os filhos em todos os desafios e frustrações inerentes à doença. Mas, o trabalho conjunto é a melhor forma de obter sucesso no tratamento. Precisamos muito do apoio da família e da escola.