Como o pré-natal psicológico pode ajudar a controlar suas emoções?
Há sentimentos ambíguos, há medos, há alegria, há tristeza, há desespero, há amor, há exaustão, há felicidade... tudo junto e misturado. Isso, gente, é a maternidade! Mesmo com tantos sentimentos em conflito, pouco fala-se em buscar apoio emocional para entender melhor o momento e passar por ele com a mente tão saudável quanto o corpo. Se você está pensando em engravidar ou está grávida, já avaliou a possibilidade de fazer um pré-natal psicológico? A psicóloga perinatal, ou seja, especialista em gestação, parto e pós-parto, Dra. Laura Drummond, ressalta que é importante um acompanhamento preventivo de forma que a mulher encare com leveza as mudanças que chegam junto com os filhos. Confira entrevista completa com a profissional:

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Quais as principais mudanças emocionais pelas quais a mulher passa quando está grávida?

Na nossa sociedade, a maternidade é vista como algo nobre, um momento pleno, em que a mulher tem a obrigação de se sentir inteira, completa, feliz. Porém, basta descobrir a gravidez para a ansiedade e o medo aparecerem. “Será que vou conseguir?”. “Serei uma boa mãe?”. “Vou conciliar bem maternidade e trabalho?”. “Como vai ficar minha vida conjugal?”. São esses os principais fantasmas que costumam rondar a gestante. Ao nos tornarmos mães perdemos espaço. São mudanças na vida pessoal, profissional, social e conjugal, que precisam ser discutidas e compreendidas.

O pré-natal psicológico pode ajudar nessa situação?

Sim, claro. É um trabalho que pode começar antes mesmo de a mulher engravidar e envolver o pai da criança - porque ele também enfrenta angústias e medos e deve participar ativamente desse momento. O atendimento funciona basicamente como uma psicoterapia de encontros semanais em que psicólogo e paciente vão trabalhando questões que a mãe sente que deve discutir. O ideal é que o pré-natal psicológico seja encarado como um método preventivo, para que a mulher encare com tranquilidade as mudanças que vão aparecer na vida dela com a maternidade.

E essa história do psicólogo acompanhar o parto? Como ajuda a família?

O momento do parto marca o encontro do bebê com a mãe e com o pai. A gente sabe por meio da literatura e de pesquisas o quanto esse encontro é importante para a criança. É um momento de fortalecer o vínculo com a família, e o bebê precisa se sentir seguro e amparado. E ele só vai se sentir assim se os pais conseguirem transmitir isso a ele. Então, o psicólogo vai trabalhar as questões emocionais envolvidas no parto, trazendo acolhimento, auxiliando na vinculação dos pais com o bebê, na aceitação do parto, lidar com as lembranças de um aborto, atender o pai quando necessário etc. Todo esse trabalho tem consequência na qualidade da ligação entre mãe-pai-bebê para o resto da vida da criança, ou seja, o que acontece na sala do parto com essa mulher e esse bebê tem implicações no desenvolvimento da relação familiar.

Quando a mulher não tem acompanhamento emocional durante a gravidez e no parto, ela pode ter mais dificuldades no pós-parto. Por quê?

No Brasil, infelizmente ainda não temos a cultura da prevenção, principalmente quando se trata das emoções. Por isso, a busca por apoio da psicoterapia acontece principalmente no pós-parto. Nossa sociedade romantiza muito a maternidade, transmitindo assim um entendimento de que com a maternidade é possível apenas vivenciar sentimentos bons. Quase nada se fala sobre a enxurrada de transformações físicas, psíquicas e rotineiras que acontece na vida da mulher e o quanto é difícil e delicada essa adaptação à nova vida. A mulher, então, se culpa por ter esses sentimentos ambíguos, o que resulta em tristeza e questionamentos. Lembrando que certa tristeza no pós-parto é normal, o que não pode é ela se estender por muito tempo nem dificultar os cuidados com o bebê. Se isso acontecer e perdurar por mais de 15 dias, é importante procurar ajuda.

E qual a importância de um acompanhamento de um psicólogo também para as mulheres que estão fazendo tratamento para engravidar?

Eu tenho muitas pacientes com esse perfil. Para aquelas que estão tentando engravidar e passam por um tratamento, é interessante um acompanhamento psicológico para que elas consigam enfrentar o momento com menos ansiedade. No caso das mulheres que não apresentam nenhum problema físico e ainda assim têm dificuldades para engravidar, muitas vezes isso tem base emocional, com questões pessoais que precisam ser resolvidas primeiro.

Doula: presença que soma

A Dra. Laura Drummond acrescentou ao currículo de psicóloga perinatal a função de doula. “Eu tenho duas filhas e tive o prazer de experimentar o parto humanizado e decidi que queria fazer parte desse momento da vida das mulheres e fiz um curso”. Antes do parto, a doula ajuda a mulher e o seu companheiro a refletirem e escolherem que tipo de parto querem ter, explicando os diferentes tipos, as vantagens e desvantagens de cada um, e quais intervenções podem ou não ser realizadas. “Assim que se inicia o trabalho de parto, acompanhamos a mulher desde as primeiras contrações até o nascimento do bebê, oferecendo massagens e exercícios de respiração eficientes durante as contrações e ajudando a mulher a encontrar posições mais confortáveis”. O trabalho se estende ainda a orientações no pós-parto imediato.