Como lidar com as emoções na gestação e no pós-parto?
Ser mãe é uma experiência única e indescritível. Mas também é o ponto de partida para a vivência de inúmeros sentimentos e emoções, dos quais as mulheres nunca foram apresentadas. “Os períodos de pré e pós-parto são um marco, e enfrentá-los, um desafio repleto de incertezas e pequenas vitórias. Muitos aspectos ocultos da psique feminina são revelados com a maternidade”, afirma a Obstetra Dra. Mery Lubna Estephan.

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No período da gestação, as mulheres vivem “um estado de graça durante a doce espera”. Muitas vezes, preparam-se para o parto temendo entrar no mundo adulto e dão à luz em um estado emocional despreparado. “Dar à luz um bebê é uma realidade profundamente desconhecida para a mãe. Um recém-nascido é isso: a manifestação organizada da sombra da própria mãe, ou seja, de tudo o que ela desconhece em seu profundo ser essencial”, destaca a Dra. Mery.

O encontro da mãe com o desconhecido é indefectível, mas muito diferente do diagnóstico de depressão pós-parto, ressalta a Dra. Mery. Para que uma depressão se instale, é necessário um desequilíbrio emocional e psíquico importante anterior ao parto, a experiência de um parto traumático e/ou uma desproteção emocional subsequente. Nesses casos, o apoio emocional, a solidariedade, interlocução e companhia superarão o desconcerto da queda emocional.

Nesse período, os profissionais podem oferecer informações importantes e realistas a respeito das surpresas apresentadas pelo puerpério às futuras mães e pais. “Devem difundir os conceitos da fusão emocional entre mãe e recém-nascido, as necessidades específicas de uma mulher puérpera e os cuidados indispensáveis que ela precisa receber. Dessa maneira, cada casal poderá determinar se está em condições de gerar o cuidado necessário ou se é preciso procurar apoios complementares fora do vínculo familiar”, explica.

A importância do pai

A ideia principal consiste em evitar que uma mulher puérpera fique sozinha por muito tempo. A mesma precisará de assistência, de companhia e da disponibilidade de outra pessoa que não interfira nem abuse de sua autoridade, que não a julge nem se intrometa, mas que apenas esteja presente. “Dentro de nossa estrutura social, acreditamos delegar essas funções ao homem, marido e pai”, enfatiza a Dra. Mery.

Nessa fase de perda da identidade da mulher, o papel do pai é fundamental como esteio emocional. “É necessário que ele mantenha sua estrutura emocional intacta e sustente o mundo material, para que a mãe não abandone o mundo emocional em que encontra-se submersa. O pai não exerce a maternidade, e sim, apoia a mãe em seu papel na mesma. No entanto, não é essa a tarefa primordial que tornará o funcionamento familiar equilibrado. A esposa, em seu profundo estado de carência emocional, muitas vezes vislumbra no conjugê o que ele não tem condições de oferecer (seja em relação a atenção, tempo ou mesmo ao aspecto emocional/apoio). Por sua vez, o marido, também angustiado pela mudanças abruptas do puerpério, espera da mulher a disponibilidade para recebê-lo com alegria e carinho. Na maioria dos casos, há um profundo desencontro”, alerta.

Durante essa fase, a maioria dos casais não conta com recursos emocionais ou sociais que facilitem a criacão dos filhos. “Precisamos disponibilizar recursos que permitam ao casal se aliviar concretamente das obrigações cotidianas, de modo que, até mesmo com um bebê, ambos tenham tempo de dizer um ao outro o que está acontecendo e possuam disponibilidade física e emocional para superarem a fase.”

Apoio durante a amamentação

Angústias durante o período do aleitamento materno são muito frequentes. Para amamentar, uma mãe necessita de introspeccão e apoio emocional. Precisa sair do mundo material e mergulhar no mundo das sensações e da intuição. O pediatra frânces Frédérique Leboyer, que divulgou a ideia do parto sem violência, descreve poeticamente em seu livro Shantala:

Serem carregadas, embaladas, acariciadas, tocadas, cada uma dessas coisas é alimento para as crianças pequenas. Quando são privadas de tudo isso, do cheiro, do calor e da voz que tão bem conhecem, as crianças, ainda que estejam fartas de leite, deixam-se morrer de fome.”

"Toda a mulher puérpera precisa de apoio afetivo, e isso é uma prioridade, não um luxo."