Mãe, você sente culpa?
Toda mãe carrega com ela o sentimento de culpa. Este sentimento nasce junto com o bebê e ocupa o primeiro lugar no ranking dos maiores dilemas vividos por elas. Os motivos mais comuns pelos quais as mães se culpam são: ter de dividir o trabalho e os filhos, não conseguir dar bons exemplos, não comprar as coisas que os filhos querem ou precisam, quando há uma separação no casamento e ainda quando os filhos adoecem. “Podemos fazer uma lista de centenas de motivos, sejam eles pequenos ou não, e ainda não descreveríamos todas as razões pelas quais as mães se culpam”, afirma a Gestalt-Terapeuta e Mestre em Psicologia Clínica Dra. Thaís Ribari Fujioka. Confira a entrevista completa com a profissional:

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Atualmente, é comum as mães se culparem por não passar mais tempo com os filhos e ter de trabalhar fora. Como minimizar essa culpa?

Saber equilibrar o tempo e a dedicação entre os filhos e o trabalho é um dos dilemas mais comuns entre as mulheres. A recomendação é que no tempo disponibilizado aos filhos essas mães dediquem toda a atenção e carinho “de corpo e alma”. É de grande importância que se estabeleça um limite do que é possível fazer pelos filhos, ou seja, uma mãe precisa buscar clareza das limitações do que ela consegue fazer para suas crianças. Essas mulheres devem ter em mente que a profissão é um motivo de orgulho e também deve ser valorizada. Diante disso, o que não é compreensível é uma mãe largar completamente seus filhos por causa da dedicação ao trabalho. De toda forma, nenhuma mãe é capaz de exercer todos os papéis com absoluta perfeição, inclusive as que se acham infalíveis.

 

O que a mãe deve fazer para não se cobrar tanto?

É fundamental entender que nenhuma mãe detém o poder e a sabedoria absoluta de proteger e criar perfeitamente um filho. A sensação de esforço e a autoavaliação de que se fez o melhor pode trazer um certo alívio às mães. Outra questão a ser destacada é que muitas mães ficam se culpando por problemas ou faltas que cometeram com os filhos no passado, porém cabe a elas no momento presente ter a consciência de que talvez essas faltas foram cometidas por motivos que as tornam pessoas falíveis, ou seja, problemas causados por imaturidade, falta de condições físicas, financeiras, intelectuais e/ou psicológicas da mulher, mas que agora cabe reparação e maior cuidado. Uma das saídas para aliviar o sentimento de culpa é compartilhar suas dúvidas e anseios com outras mães, psicólogos e, ainda, ter uma rede de ajuda, como a avó ou a babá.

 

O sentimento de culpa pode ser saudável de alguma forma?

A culpa é profícua até o ponto em que leva uma mãe a se responsabilizar equilibradamente pelo desenvolvimento saudável de seus filhos e a ajuda a buscar agir em prol de um bem-estar de todos da família, inclusive dela mesma. Vale destacar que não estamos falando de perfeição materna. Os filhos precisam de uma mãe feliz, e não de uma mãe vítima que se culpa por tudo e o tempo todo. Por outro lado, não é saudável a falta total dessa culpa, que beira o descaso, quando a mãe sequer se responsabiliza pelos seus filhos.

 

Quando a mãe passa dos limites e deve procurar ajuda?

O sentimento de culpa vivido de forma exagerada não é sinônimo de amor, cuidado, ou ainda prova de que se é uma “boa mãe”. A culpa vivida de forma extrapolada impede a clareza necessária a uma boa e sensata educação aos filhos. Desse modo, deve-se procurar ajuda a partir do momento em que se percebe o exagero na vivência do sentimento de culpa, e ainda, quando se percebe que esse sentimento afeta os filhos, que são sensíveis aos sentimentos e reações de suas mães.

 

Esse sentimento de culpa da mãe pode ser prejudicial ao filho?

Pode. Se os filhos sentem que são motivo de sofrimento ou infelicidade de sua mãe e, até mesmo do pai, isso pode causar alguns danos emocionais. Os filhos, por exemplo, podem ser prejudicados no desenvolvimento da independência, pois, muitas vezes, essas mães os sufocam com excessos de cuidados. Crianças criadas assim possivelmente não desenvolvem autoconfiança e tornam-se adultos inseguros e/ou ainda com baixa autoestima.

 

Existem mães que não sentem culpa? Por quê?

Existem aquelas que não se responsabilizam pelos filhos. No meu consultório recebo mães que delegam as responsabilidades da criação de seus filhos a outras pessoas. Quando agem assim tendem a sentir e achar que os problemas e situações que envolvem a criação deles é de responsabilidade e culpa do pai, da babá, de um professor ou até mesmo de um psicólogo. Nesse caso, é muito importante que essas mães reflitam acerca do seu papel na criação do filho. É algo oposto ao que acontece com as mães que se culpam o tempo todo. Recebo também em meu consultório mães que descobriram a melhor maneira de lidar com seus sentimentos e, por esse motivo, já não sofrem desequilibradamente por culpa.