Encontro possível: maternidades singulares
Maternidades acontecem em um encontro, um encontro com o desconhecido de cada mulher, com cada sujeito envolvido; um encontro, no caso particular com os recém-nascidos, que exige de mãe/pai/cuidador uma abertura a vivenciar um tempo diferente, um aprendizado cotidiano sobre o que esse ser que chegou pode oferecer: isso vai da total dependência para se locomover, se alimentar, dormir etc. até as interações mais complexas e afetivas. E os bebês são tão diferentes uns dos outros! Diante dessa novidade misteriosa, nossa tentativa é sempre de controlar e imaginar em qual estágio ou fase esse serzinho está, para dominar o que aparece como um problema; porém a cada vez a criança nos surpreende e nos ensina a potência do encontro e dos imprevistos.

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O tornar-se mãe acontece também em suas ambivalências, com um profundo desencaixe daquilo que até então parecia ser o ideal sonhado; essa dissimetria pode ser experimentada com intensas sensações de tristeza, raiva, e até indiferença, afetos que por vezes transbordam nesse encontro com o desconhecido que é o bebê. Tal ambivalência muitas vezes vem acompanhada de um profundo sofrimento psíquico: a mãe se vê dividida, confusa, culpada e com frequência acaba não encontrando um espaço de acolhimento e elaboração daquilo que a atravessa nesse período.

Para a psicanálise, um bebê atualiza um desamparo, quando todos ao redor querem dar um solução mágica para que tudo se apazigue imediatamente e permita a tranquilidade tão ansiada. São tantos os palpites, da gestação ao pós-parto, que muitas vezes o saber e o aprendizado da mãe/mulher recebem pouco valor; assim, a todo tempo se tenta preencher com algo pronto e exterior o vazio que esse encontro pode produzir. Talvez aqui esteja a aposta feita pela clínica psicanalítica: esta se põe a escutar as mulheres uma a uma em sua maternidade possível, e com a suspeita de que não se trata de um encontro qualquer.

Pelo contrário, este é um encontro sempre singular, em que a todo tempo temos notícia das mais diversas experiências de ser mãe, esse lugar que pode transformar, arrebatar, alegrar, entristecer, exaurir, suavizar, sofrer e amar. Tratar da subjetividade das mães, em um manual, é quase um contrassenso, na medida em que o que tenho para apresentar aqui para você, leitor e leitora, não segue a lei do “para todos”, das prescrições e daquilo que “tem que ser”; ou seja, no campo da subjetividade, só podemos dizer algo no um a um, no singular de cada sujeito e de cada experiência.